O homem que queria ser polícia e acabou a roubar a McDonald's durante 12 anos

2018-08-01

Imprimir, guardar, selar, abrir, trocar, fechar, distribuir. Eis a rotina de Jerome Paul Jacobson, o homem que durante 12 anos roubou a McDonald’s. Era chefe de segurança na empresa que fabricava os cartões do jogo Monopólio da cadeia de restaurantes.


© Tim Boyle/Getty Images O homem que queria ser polícia e acabou a roubar a McDonald's durante 12 anos
As probabilidades estavam longe de jogar a seu favor, mas ainda assim era possível. E o funcionário da McDonald’s que estava de serviço naquele dia, de volta do telefone, não tinha como duvidar de que o homem que contactara a linha de assistência a dizer que vencera o prémio principal do Monopólio da cadeia de restaurantes tinha, de facto, na sua posse o cartão raro que lhe dava direito a reclamar o "troféu" no valor de um milhão de dólares. A não ser, claro, que já houvesse suspeitas de fraude e a polícia já tivesse colocado dezenas de suspeitos sob escuta, controlando as chamadas telefónicas que faziam entre si, como era o caso.
Seja como for, a 3 de agosto de 2001, Michael Hoover, o homem que o jogo tornara uma exceção - as hipóteses de vencer o prémio principal eram de um em 250 milhões - recebia em casa, na cidade de Westerly, Rhode Island, uma equipa da McDonald’s desejosa de o filmar com o cheque gigante e simbólico em mãos. Encorajado a explicar como tinha conseguido o cartão de acesso ao paraíso, Hoover deu uma justificação tão fantasiosa quanto aleatória, contrastando o seu nervosismo com o regozijo dos dois homens que o filmavam naquele momento, que não trabalhavam para a cadeia de televisão da rede de restaurantes, mas sim para o FBI.
Michael Hoover foi a última peça de um esquema que durou pelo menos 12 anos e que tinha à cabeça um homem nascido em 1943 em Youngstown, no Ohio, chamado Jerome Paul Jacobson. Com sonhos de envergar uma farda policial desde muito novo, Jacobson teve de ir abdicando desse plano por razões de saúde. Usamos o gerúndio porque foram, de facto, várias as vezes em que ele insistiu em cumprir o que considerava ser o seu desígnio, mas sempre sem consegui-lo. As alergias crónicas e algumas lesões impediram-no de entrar na Marinha e um outro problema num pulso, seguida do diagnóstico de uma doença neurológica muito rara, tirou-lhe o lugar no departamento policial de Hollywood, na Florida.
À falta de outras alternativas, acabou por aceitar um emprego como mecânico em Atlanta, no estado da Georgia, para onde entretanto se mudara com a mulher. Daí passou para auxiliar de segurança na empresa onde ela trabalhava, em Oakwood, também localizada naquele estado norte-americano. Aos poucos, foi sobressaindo dentro da Dittler Brothers, a ponto de ser convidado para supervisionar toda a produção de um dos principais clientes da empresa - nem mais nem menos do que a McDonald’s.

“Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”

Era ali, na secção que Jacobson chefiava, que se imprimiam os cartões do famoso jogo que a McDonald’s mantinha desde 1987 como forma de aliciar os seus clientes em vários países a consumir os seus produtos. Os prémios que se prometia eram, para muitos, irrecusáveis - desde consolas da Sega a férias na Jamaica - e a procura pelos cartões, que vinham com as embalagens de batatas fritas, copos e anúncios da marca em revistas, alternava entre o divertido - com pessoas a trocar cartões no eBay - e o verdadeiramente desesperado, havendo quem assaltasse lojas da cadeia de restaurantes para exigir cartões do jogo (ainda este ano, um homem encapuzado entrou numa das lojas da cadeia no Reino Unido para roubar os preciosos papelinhos).
O prémio máximo era de um milhão de dólares e era por isso que Jacobson patrulhava quase militarmente os corredores da sua secção para ver se ninguém roubava cartões. “Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”, contou um dos trabalhadores. Outro disse não estar sequer autorizado a ir à casa-de-banho sozinho, não fosse dar-se o caso de cair na tentação de esconder peças por debaixo da roupa. O prémio máximo valia aquele dinheiro todo e foi precisamente por causo disto que Jacobson decidiu fazer aquilo que passava os seus dias a impedir que outros fizessem.
Sendo Jacobson das poucas pessoas dentro da empresa que tinham acesso aos cartões com prémio - era ele que depositava esses cartões em cofres ultra protegidos e depois os colocava em envelopes selados que transportava, escondidos num bolso secreto que o próprio cozera no seu colete, para as fábricas da cadeia de restaurantes espalhadas pelo país onde eles deveriam ser embalados - decidiu começar a roubar alguns destes cartões e a dividir o prémio com aqueles que conseguisse angariar para o seu esquema.
“Dirigia-me sempre à casa de banho do aeroporto, o único lugar em que estava de facto sozinho [era uma mulher, funcionária da empresa, que o acompanhava nessas viagens], abria os envelopes [Jacobson arranjara uma forma eficaz de o fazer e que nunca levantou suspeitas] e trocava as peças com prémio, que guardava para mim, por peças sem valor nenhum”, viria a contar o próprio muitos anos mais tarde, à polícia.
Um dos seus principais compinchas no esquema era um homem chamado Gennaro Colombo, nascido na Sicília, que Jacobson conheceu no aeroporto de Atlanta em 1995. Gennaro vivia naquele momento na Carolina do Sul, onde era dono de vários bares de alterne e casinos, entretendo-se ainda a gastar dinheiro em apostas desportivas. Era fã da trilogia de Coppola (“O Padrinho”) e talvez por isso não tenha hesitado quando Jacobson lhe propôs um pacto (também queria ser ator, mas para isso já não temos nenhuma teoria). A entrada de Colombo permitiu alargar a rede de contactos de Jacobson e profissionalizar um esquema que, à partida e para qualquer pessoa que via de fora, tinha tudo para dar errado.
O plano era sempre o mesmo. Jacobson trocava os cartões, guardava o mais valioso e entregava-o a determinada pessoa que manifestasse interesse em participar, desde pessoas da sua família a amigos, conhecidos e desconhecidos; essa pessoa deveria depois reclamar o prémio junto da McDonald’s, ficando com uma parte do dinheiro e entregando o restante ao chefe. Uma das pessoas que estava a par do esquema era Robin Colombo, mulher de Gennaro, que viria a ser determinante para o desfecho deste caso.
Isto porque, quando Gennaro Colombo morreu num alegado acidente de carro, Robin, que estaria ao volante do veículo, foi acusada pela família do marido de ter deliberadamente acelerado em direção a um camião que circulava em sentido contrário. Não só a acusaram como a importunaram várias vezes, a ponto de Robin não ter dúvidas de que foram os Colombo a denunciar o seu pai, William Fisher, assim como o seu primo e a sua melhor amiga, que também participaram no esquema de Jacobson. “Foi a forma que encontraram de retaliar pela morte do filho”, viria a dizer Robin Colombo anos depois.

“Resposta final”, a operação que permitiu desvendar o esquema

Certo é que a pista chegou ao FBI, que nos meses seguintes montou uma operação gigantesca a que deu o nome de “Resposta Final” e em que participaram 25 agentes responsáveis por seguir o rasto de mais de 20 mil números de telefone e ouvir 235 cassetes com gravações de chamadas. Ao comando, estava Richard Dent, um veterano do FBI que viria a ter um papel determinante na operação, desde logo quando conseguiu convencer a McDonald’s a manter o jogo mesmo depois de se saber que este havia sido defraudado, como forma de ajudar a polícia a apanhar os suspeitos em flagrante.
“Tive de fazer o que estava certo. Qualquer pessoa que estivesse no meu lugar certamente que teria feito o mesmo. Se fosse hoje, faria o mesmo”, viria a afirmar mais tarde Jack Greenberg, presidente executivo da cadeia de restaurantes, ao jornal “Chicago Tribune”. “Aquilo que descobrimos ao manter o jogo permitiu ao FBI terminar a sua investigação”, acrescentou Greenberg, e nisso ele tinha razão. Pista atrás de pista, a polícia acabou a bater à porta de Michael Hoover, em Rhode Island, cuja história abre este texto.
Mais de 50 pessoas foram acusadas de fraude, umas foram detidas e outras ficaram em liberdade condicional e tiveram de pagar multas. Jacobson tentou aliviar a sua pena de prisão partilhando com a polícia informações incriminatórias sobre a empresa para a qual trabalhava, mas isso nenhum efeito terá tido. Foi condenado a 37 meses de prisão e à saída do tribunal, no dia do seu julgamento, apertou a mão a Richard Dent, o polícia que ele provavelmente gostava de ter sido, mas que jamais conseguiu ser.


Veja também: O roubo de um tubarão que está a correr mundo










Imprimir, guardar, selar, abrir, trocar, fechar, distribuir. Eis a rotina de Jerome Paul Jacobson, o homem que durante 12 anos roubou a McDonald’s. Era chefe de segurança na empresa que fabricava os cartões do jogo Monopólio da cadeia de restaurantes.


© Tim Boyle/Getty Images O homem que queria ser polícia e acabou a roubar a McDonald's durante 12 anos
As probabilidades estavam longe de jogar a seu favor, mas ainda assim era possível. E o funcionário da McDonald’s que estava de serviço naquele dia, de volta do telefone, não tinha como duvidar de que o homem que contactara a linha de assistência a dizer que vencera o prémio principal do Monopólio da cadeia de restaurantes tinha, de facto, na sua posse o cartão raro que lhe dava direito a reclamar o "troféu" no valor de um milhão de dólares. A não ser, claro, que já houvesse suspeitas de fraude e a polícia já tivesse colocado dezenas de suspeitos sob escuta, controlando as chamadas telefónicas que faziam entre si, como era o caso.
Seja como for, a 3 de agosto de 2001, Michael Hoover, o homem que o jogo tornara uma exceção - as hipóteses de vencer o prémio principal eram de um em 250 milhões - recebia em casa, na cidade de Westerly, Rhode Island, uma equipa da McDonald’s desejosa de o filmar com o cheque gigante e simbólico em mãos. Encorajado a explicar como tinha conseguido o cartão de acesso ao paraíso, Hoover deu uma justificação tão fantasiosa quanto aleatória, contrastando o seu nervosismo com o regozijo dos dois homens que o filmavam naquele momento, que não trabalhavam para a cadeia de televisão da rede de restaurantes, mas sim para o FBI.
Michael Hoover foi a última peça de um esquema que durou pelo menos 12 anos e que tinha à cabeça um homem nascido em 1943 em Youngstown, no Ohio, chamado Jerome Paul Jacobson. Com sonhos de envergar uma farda policial desde muito novo, Jacobson teve de ir abdicando desse plano por razões de saúde. Usamos o gerúndio porque foram, de facto, várias as vezes em que ele insistiu em cumprir o que considerava ser o seu desígnio, mas sempre sem consegui-lo. As alergias crónicas e algumas lesões impediram-no de entrar na Marinha e um outro problema num pulso, seguida do diagnóstico de uma doença neurológica muito rara, tirou-lhe o lugar no departamento policial de Hollywood, na Florida.
À falta de outras alternativas, acabou por aceitar um emprego como mecânico em Atlanta, no estado da Georgia, para onde entretanto se mudara com a mulher. Daí passou para auxiliar de segurança na empresa onde ela trabalhava, em Oakwood, também localizada naquele estado norte-americano. Aos poucos, foi sobressaindo dentro da Dittler Brothers, a ponto de ser convidado para supervisionar toda a produção de um dos principais clientes da empresa - nem mais nem menos do que a McDonald’s.

“Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”

Era ali, na secção que Jacobson chefiava, que se imprimiam os cartões do famoso jogo que a McDonald’s mantinha desde 1987 como forma de aliciar os seus clientes em vários países a consumir os seus produtos. Os prémios que se prometia eram, para muitos, irrecusáveis - desde consolas da Sega a férias na Jamaica - e a procura pelos cartões, que vinham com as embalagens de batatas fritas, copos e anúncios da marca em revistas, alternava entre o divertido - com pessoas a trocar cartões no eBay - e o verdadeiramente desesperado, havendo quem assaltasse lojas da cadeia de restaurantes para exigir cartões do jogo (ainda este ano, um homem encapuzado entrou numa das lojas da cadeia no Reino Unido para roubar os preciosos papelinhos).
O prémio máximo era de um milhão de dólares e era por isso que Jacobson patrulhava quase militarmente os corredores da sua secção para ver se ninguém roubava cartões. “Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”, contou um dos trabalhadores. Outro disse não estar sequer autorizado a ir à casa-de-banho sozinho, não fosse dar-se o caso de cair na tentação de esconder peças por debaixo da roupa. O prémio máximo valia aquele dinheiro todo e foi precisamente por causo disto que Jacobson decidiu fazer aquilo que passava os seus dias a impedir que outros fizessem.
Sendo Jacobson das poucas pessoas dentro da empresa que tinham acesso aos cartões com prémio - era ele que depositava esses cartões em cofres ultra protegidos e depois os colocava em envelopes selados que transportava, escondidos num bolso secreto que o próprio cozera no seu colete, para as fábricas da cadeia de restaurantes espalhadas pelo país onde eles deveriam ser embalados - decidiu começar a roubar alguns destes cartões e a dividir o prémio com aqueles que conseguisse angariar para o seu esquema.
“Dirigia-me sempre à casa de banho do aeroporto, o único lugar em que estava de facto sozinho [era uma mulher, funcionária da empresa, que o acompanhava nessas viagens], abria os envelopes [Jacobson arranjara uma forma eficaz de o fazer e que nunca levantou suspeitas] e trocava as peças com prémio, que guardava para mim, por peças sem valor nenhum”, viria a contar o próprio muitos anos mais tarde, à polícia.
Um dos seus principais compinchas no esquema era um homem chamado Gennaro Colombo, nascido na Sicília, que Jacobson conheceu no aeroporto de Atlanta em 1995. Gennaro vivia naquele momento na Carolina do Sul, onde era dono de vários bares de alterne e casinos, entretendo-se ainda a gastar dinheiro em apostas desportivas. Era fã da trilogia de Coppola (“O Padrinho”) e talvez por isso não tenha hesitado quando Jacobson lhe propôs um pacto (também queria ser ator, mas para isso já não temos nenhuma teoria). A entrada de Colombo permitiu alargar a rede de contactos de Jacobson e profissionalizar um esquema que, à partida e para qualquer pessoa que via de fora, tinha tudo para dar errado.
O plano era sempre o mesmo. Jacobson trocava os cartões, guardava o mais valioso e entregava-o a determinada pessoa que manifestasse interesse em participar, desde pessoas da sua família a amigos, conhecidos e desconhecidos; essa pessoa deveria depois reclamar o prémio junto da McDonald’s, ficando com uma parte do dinheiro e entregando o restante ao chefe. Uma das pessoas que estava a par do esquema era Robin Colombo, mulher de Gennaro, que viria a ser determinante para o desfecho deste caso.
Isto porque, quando Gennaro Colombo morreu num alegado acidente de carro, Robin, que estaria ao volante do veículo, foi acusada pela família do marido de ter deliberadamente acelerado em direção a um camião que circulava em sentido contrário. Não só a acusaram como a importunaram várias vezes, a ponto de Robin não ter dúvidas de que foram os Colombo a denunciar o seu pai, William Fisher, assim como o seu primo e a sua melhor amiga, que também participaram no esquema de Jacobson. “Foi a forma que encontraram de retaliar pela morte do filho”, viria a dizer Robin Colombo anos depois.

“Resposta final”, a operação que permitiu desvendar o esquema

Certo é que a pista chegou ao FBI, que nos meses seguintes montou uma operação gigantesca a que deu o nome de “Resposta Final” e em que participaram 25 agentes responsáveis por seguir o rasto de mais de 20 mil números de telefone e ouvir 235 cassetes com gravações de chamadas. Ao comando, estava Richard Dent, um veterano do FBI que viria a ter um papel determinante na operação, desde logo quando conseguiu convencer a McDonald’s a manter o jogo mesmo depois de se saber que este havia sido defraudado, como forma de ajudar a polícia a apanhar os suspeitos em flagrante.
“Tive de fazer o que estava certo. Qualquer pessoa que estivesse no meu lugar certamente que teria feito o mesmo. Se fosse hoje, faria o mesmo”, viria a afirmar mais tarde Jack Greenberg, presidente executivo da cadeia de restaurantes, ao jornal “Chicago Tribune”. “Aquilo que descobrimos ao manter o jogo permitiu ao FBI terminar a sua investigação”, acrescentou Greenberg, e nisso ele tinha razão. Pista atrás de pista, a polícia acabou a bater à porta de Michael Hoover, em Rhode Island, cuja história abre este texto.
Mais de 50 pessoas foram acusadas de fraude, umas foram detidas e outras ficaram em liberdade condicional e tiveram de pagar multas. Jacobson tentou aliviar a sua pena de prisão partilhando com a polícia informações incriminatórias sobre a empresa para a qual trabalhava, mas isso nenhum efeito terá tido. Foi condenado a 37 meses de prisão e à saída do tribunal, no dia do seu julgamento, apertou a mão a Richard Dent, o polícia que ele provavelmente gostava de ter sido, mas que jamais conseguiu ser.


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Imprimir, guardar, selar, abrir, trocar, fechar, distribuir. Eis a rotina de Jerome Paul Jacobson, o homem que durante 12 anos roubou a McDonald’s. Era chefe de segurança na empresa que fabricava os cartões do jogo Monopólio da cadeia de restaurantes.

As probabilidades estavam longe de jogar a seu favor, mas ainda assim era possível. E o funcionário da McDonald’s que estava de serviço naquele dia, de volta do telefone, não tinha como duvidar de que o homem que contactara a linha de assistência a dizer que vencera o prémio principal do Monopólio da cadeia de restaurantes tinha, de facto, na sua posse o cartão raro que lhe dava direito a reclamar o "troféu" no valor de um milhão de dólares. A não ser, claro, que já houvesse suspeitas de fraude e a polícia já tivesse colocado dezenas de suspeitos sob escuta, controlando as chamadas telefónicas que faziam entre si, como era o caso.

Seja como for, a 3 de agosto de 2001, Michael Hoover, o homem que o jogo tornara uma exceção - as hipóteses de vencer o prémio principal eram de um em 250 milhões - recebia em casa, na cidade de Westerly, Rhode Island, uma equipa da McDonald’s desejosa de o filmar com o cheque gigante e simbólico em mãos. Encorajado a explicar como tinha conseguido o cartão de acesso ao paraíso, Hoover deu uma justificação tão fantasiosa quanto aleatória, contrastando o seu nervosismo com o regozijo dos dois homens que o filmavam naquele momento, que não trabalhavam para a cadeia de televisão da rede de restaurantes, mas sim para o FBI.

Michael Hoover foi a última peça de um esquema que durou pelo menos 12 anos e que tinha à cabeça um homem nascido em 1943 em Youngstown, no Ohio, chamado Jerome Paul Jacobson. Com sonhos de envergar uma farda policial desde muito novo, Jacobson teve de ir abdicando desse plano por razões de saúde. Usamos o gerúndio porque foram, de facto, várias as vezes em que ele insistiu em cumprir o que considerava ser o seu desígnio, mas sempre sem consegui-lo. As alergias crónicas e algumas lesões impediram-no de entrar na Marinha e um outro problema num pulso, seguida do diagnóstico de uma doença neurológica muito rara, tirou-lhe o lugar no departamento policial de Hollywood, na Florida.

À falta de outras alternativas, acabou por aceitar um emprego como mecânico em Atlanta, no estado da Georgia, para onde entretanto se mudara com a mulher. Daí passou para auxiliar de segurança na empresa onde ela trabalhava, em Oakwood, também localizada naquele estado norte-americano. Aos poucos, foi sobressaindo dentro da Dittler Brothers, a ponto de ser convidado para supervisionar toda a produção de um dos principais clientes da empresa - nem mais nem menos do que a McDonald’s.

“Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”

Era ali, na secção que Jacobson chefiava, que se imprimiam os cartões do famoso jogo que a McDonald’s mantinha desde 1987 como forma de aliciar os seus clientes em vários países a consumir os seus produtos. Os prémios que se prometia eram, para muitos, irrecusáveis - desde consolas da Sega a férias na Jamaica - e a procura pelos cartões, que vinham com as embalagens de batatas fritas, copos e anúncios da marca em revistas, alternava entre o divertido - com pessoas a trocar cartões no eBay - e o verdadeiramente desesperado, havendo quem assaltasse lojas da cadeia de restaurantes para exigir cartões do jogo (ainda este ano, um homem encapuzado entrou numa das lojas da cadeia no Reino Unido para roubar os preciosos papelinhos).

O prémio máximo era de um milhão de dólares e era por isso que Jacobson patrulhava quase militarmente os corredores da sua secção para ver se ninguém roubava cartões. “Ele inspecionava os sapatos dos trabalhadores para ver se não havia ali cartões”, contou um dos trabalhadores. Outro disse não estar sequer autorizado a ir à casa-de-banho sozinho, não fosse dar-se o caso de cair na tentação de esconder peças por debaixo da roupa. O prémio máximo valia aquele dinheiro todo e foi precisamente por causo disto que Jacobson decidiu fazer aquilo que passava os seus dias a impedir que outros fizessem.

Sendo Jacobson das poucas pessoas dentro da empresa que tinham acesso aos cartões com prémio - era ele que depositava esses cartões em cofres ultra protegidos e depois os colocava em envelopes selados que transportava, escondidos num bolso secreto que o próprio cozera no seu colete, para as fábricas da cadeia de restaurantes espalhadas pelo país onde eles deveriam ser embalados - decidiu começar a roubar alguns destes cartões e a dividir o prémio com aqueles que conseguisse angariar para o seu esquema.

“Dirigia-me sempre à casa de banho do aeroporto, o único lugar em que estava de facto sozinho [era uma mulher, funcionária da empresa, que o acompanhava nessas viagens], abria os envelopes [Jacobson arranjara uma forma eficaz de o fazer e que nunca levantou suspeitas] e trocava as peças com prémio, que guardava para mim, por peças sem valor nenhum”, viria a contar o próprio muitos anos mais tarde, à polícia.

Um dos seus principais compinchas no esquema era um homem chamado Gennaro Colombo, nascido na Sicília, que Jacobson conheceu no aeroporto de Atlanta em 1995. Gennaro vivia naquele momento na Carolina do Sul, onde era dono de vários bares de alterne e casinos, entretendo-se ainda a gastar dinheiro em apostas desportivas. Era fã da trilogia de Coppola (“O Padrinho”) e talvez por isso não tenha hesitado quando Jacobson lhe propôs um pacto (também queria ser ator, mas para isso já não temos nenhuma teoria). A entrada de Colombo permitiu alargar a rede de contactos de Jacobson e profissionalizar um esquema que, à partida e para qualquer pessoa que via de fora, tinha tudo para dar errado.

O plano era sempre o mesmo. Jacobson trocava os cartões, guardava o mais valioso e entregava-o a determinada pessoa que manifestasse interesse em participar, desde pessoas da sua família a amigos, conhecidos e desconhecidos; essa pessoa deveria depois reclamar o prémio junto da McDonald’s, ficando com uma parte do dinheiro e entregando o restante ao chefe. Uma das pessoas que estava a par do esquema era Robin Colombo, mulher de Gennaro, que viria a ser determinante para o desfecho deste caso.

Isto porque, quando Gennaro Colombo morreu num alegado acidente de carro, Robin, que estaria ao volante do veículo, foi acusada pela família do marido de ter deliberadamente acelerado em direção a um camião que circulava em sentido contrário. Não só a acusaram como a importunaram várias vezes, a ponto de Robin não ter dúvidas de que foram os Colombo a denunciar o seu pai, William Fisher, assim como o seu primo e a sua melhor amiga, que também participaram no esquema de Jacobson. “Foi a forma que encontraram de retaliar pela morte do filho”, viria a dizer Robin Colombo anos depois.

“Resposta final”, a operação que permitiu desvendar o esquema

Certo é que a pista chegou ao FBI, que nos meses seguintes montou uma operação gigantesca a que deu o nome de “Resposta Final” e em que participaram 25 agentes responsáveis por seguir o rasto de mais de 20 mil números de telefone e ouvir 235 cassetes com gravações de chamadas. Ao comando, estava Richard Dent, um veterano do FBI que viria a ter um papel determinante na operação, desde logo quando conseguiu convencer a McDonald’s a manter o jogo mesmo depois de se saber que este havia sido defraudado, como forma de ajudar a polícia a apanhar os suspeitos em flagrante.

“Tive de fazer o que estava certo. Qualquer pessoa que estivesse no meu lugar certamente que teria feito o mesmo. Se fosse hoje, faria o mesmo”, viria a afirmar mais tarde Jack Greenberg, presidente executivo da cadeia de restaurantes, ao jornal “Chicago Tribune”. “Aquilo que descobrimos ao manter o jogo permitiu ao FBI terminar a sua investigação”, acrescentou Greenberg, e nisso ele tinha razão. Pista atrás de pista, a polícia acabou a bater à porta de Michael Hoover, em Rhode Island, cuja história abre este texto.

Mais de 50 pessoas foram acusadas de fraude, umas foram detidas e outras ficaram em liberdade condicional e tiveram de pagar multas. Jacobson tentou aliviar a sua pena de prisão partilhando com a polícia informações incriminatórias sobre a empresa para a qual trabalhava, mas isso nenhum efeito terá tido. Foi condenado a 37 meses de prisão e à saída do tribunal, no dia do seu julgamento, apertou a mão a Richard Dent, o polícia que ele provavelmente gostava de ter sido, mas que jamais conseguiu ser.

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Apresentação da Liz Consulting Corporate

2017-05-15

Uma apresentação genérica da Liz Consulting Corporate.